MINHA
VIDA NO BRASIL
INTRODUÇÃO
Considerando que sou descendente de
imigrantes italianos aportados no Brasil nos anos de 1891/1897 contarei minha
história de vida que contempla três fases: :infância, juventude e maturidade.
Nasci na localidade de Ciríaco,
quando esse povoado era pertencente à jurisdição de Passo Fundo, cidade situada no norte do
Estado do Rio Grande do Sul. O povoamento
de Ciríaco se deu mais fortemente
a partir do ano de 1925 quando faltou terra de plantio para os imigrantes italianos e seus
descendentes que eram em sua maioria
agricultores nas antigas colônias da serra
gaúcha, mais precisamente Nova Bassano, Nova Prata e toda região
circunvizinha. Começaram então a migrar, adquirindo terras na região noroeste
do Rio Grande do Sul e em outros Estados
do Brasil.
Meu pai Cornélio
Seganfredo vinha de uma família numerosa de 11 irmãos e aos 25 anos decidiu seu
futuro adquirindo um lote de terras agricultáveis em Ciriaco onde se casou com
uma descendente de imigrantes italianos, Luiza Ferri, filha de um dos primeiros
colonizadores provindo de Nova Bassano
em 1925.
Os descendentes de
imigrantes se estabeleceram na região da mata e tiveram que proceder tal qual seus pais e avós quando chegaram da Itália:entravam
na floresta, abriam clareiras abatendo as árvores, construindo casas em madeira
e semeando trigo, milho, criando galinhas, porcos, basicamente para a alimentação da família e vendendo o
excedente. No início a alimentação era complementada pelo fruto do pinheiro, o
pinhão, que matou a fome dos primeiros povoadores do sul do Brasil, e também
pescavam peixe de rio e caçavam animais selvagens como o cateto, uma espécie de
porco selvagem. Nas vizinhanças das
novas colônias já habitavam
outras etnias estabelecidas nos campos, em sua maioria descendentes de
portugueses provindos das ilhas dos Açores ali pelo ano 1850. Não eram
agricultores mas sim criadores de gado e ovelhas. Começou assim um intercâmbio
de culturas diferentes, ainda se no
princípio da nova colonização houvesse
um certo estranhamento entre as duas etnias, ambos querendo ficar dentro
do seu contexto cultural e de costumes. Assim os descendentes de italianos
começaram a organizar a sociedade nos moldes das antigas colônias, construindo
a Igreja, reuniam-se para rezar aos
domingos, realizavam anualmente a festa da santa padroeira e fizeram um calendário de dias santos de
guarda , capitaneados por alguns dos colonos com mais conhecimento que eram
chamados “padres leigos’, que oficiavam inclusive as cerimônias de sepultamento
enquanto não fosse designado um padre
ali para atendê-los espiritualmente.
Por sua vez os luso
brasileiros organizavam corridas de cancha reta, andavam sempre a cavalo e
armados. Criavam e vendiam gado e mulas .As mulas eram meio de transporte de comércio de víveres
como açúcar, café, sal e tecidos que os carreteiros compravam nas cidades
maiores e distribuíam nos pequenos comércios do interior. Alguns chamados
‘TROPEIROS’ percorriam grandes
distâncias até São Paulo, Curitiba,
fronteiras com o Uruguay e Argentina, vendiam tropas de gado e mulas criadas nas fazendas , faziam o
intermediário entre o produtor e o consumidor.
As estradas eram de
terra batida e o traçado era o das antigas trilhas indígenas, percorridas
anteriormente pelos bandeirantes paulistas que vinham até o sul do Brasil para
aprisionar índios e vende-los em São Paulo para os fazendeiros de café como
escravos na segunda metade do século XVII.
MINHA
INFÂNCIA
Nasci na roça em
1956 onde meus pais se estabeleceram
como agricultores, distante cerca de
três km do povoado de Ciríaco e raramente ia até o pequeno burgo. Fiquei assim até os oito anos convivendo com
a família e os parentes vizinhos e outras famílias de colonos que moravam ali
nas proximidades. Em casa como meus pais falavam o Talian, derivado do dialeto
vêneto eu me comunicava prioritariamente
neste dialeto , embora entendesse o português, lingua oficial do Brasil , que
meus pais e irmãos falavam para se
comunicar com os luso brasileiros, mas com um forte sotaque italiano.
Aos oito anos comecei a
freqüentar a escola que servia tanto para os filhos dos descendentes de
imigrantes italianos como também para os filhos dos luso brasileiros e assim
sendo alfabetizada em português e convivendo
com as multi etnias começou minha fase de “abrasiliamento’. Nesse
período eu ria muito do meu jeito de falar misturando palavras de talian e de
“brasiliam’- assim eu me referia à
lingua portuguesa. Fiquei estudando ali até a idade de 11 anos, depois me
transferi para um colégio maior, no povoado de Ciríaco onde pude estudar até os
16 anos.
A
JUVENTUDE
Não querendo
permanecer na agricultura , com o consentimento de meus pais me
transferi para a cidade de Passo Fundo,
multi etnica, cidade que surgiu pela passagem dos bandeirantes desde
1637 e sendo lugar de parada destes e posteriormente dos tropeiros , neste ano
de 1973 já oferecia oportunidade de trabalho e uma universidade com diversos
cursos.
A minha realidade em Passo Fundo já mudou completamente, falando exclusivamente
o português , o talian e os costumes da infância e parte da adolescência foram
ficando para trás , sendo só uma lembrança quando ia visitar meus pais.
Comecei a trabalhar no comércio local e conclui a
segunda etapa do ensino médio , logo ingressando na Universidade de Passo
Fundo, Bacharelado em Ciências.
Posso dizer que nesta nova etapa da minha vida houve
a ruptura entre a neta de imigrantes italianos e foi nascendo a minha
brasilidade, inserida em tudo o que era ‘brasileiro’, música, usos e costumes,
em nada lembrava a primeira realidade, e assim fui seguindo, participando da
política ativamente, sempre inteirada do que acontecia nesse meu imenso e amado Brasil.
A
MATURIDADE
Assim minha vida foi
seguindo, coisas boas e também não tão boas que toda pessoa enfrenta, até que
chegou minha aposentadoria por tempo de serviço e tive novamente de me
reestruturar, ocupar o tempo em atividades que sempre me atraíram como
escrever, estudar, ler e pesquisar história do Rio Grande do Sul e do Brasil.
Neste período algumas
lembranças da infância começaram a se fazer presentes e lembrando da lingua que
falávamos em casa, lembrando as histórias que minha avó Catterina –imigrante
italiana- contava e das histórias que meus pais contavam , veio-me a
curiosidade de pesquisar as minhas origens, começando pela busca de documentos
em Mason Vicentino, Vicenza, obtendo êxito, fiquei encantada e não parei mais.
Passaram-se os anos e
ali pelos anos 2000 um parente que estava fazendo turismo na Itália ,
pesquisando as origens, chegou até uma família de italianos descendentes do
único de uma família de 5 irmãos do nosso ramo de família que permaneceu na
Itália. Foram muito receptivos por essa pessoa se tratar de um jovem padre e
assim pouco a pouco fomos restabelecendo os laços de amizade, alguns
brasileiros foram visitá-los estando em turismo na Itália e eles também vieram
nos visitar por ocasião da ordenação do primo
, quando este se tornou padre.
O meu contato com os
parentes italianos se deu como que
por um milagre. Estando outro parente na
Itália em viagem turística-agora já era costume visitar os parentes em
Maróstica- ao qual eu havia dado
informações sobre a origem da
família mencionou-me nessa visita.
Abrindo a caixa de emails deparei-me com um muito especial:’Salutti
Dall’Italia!
Foi o primeiro aceno
dos parentes italianos para mim, que também estavam interessados em saber sobre
nossa história!
Trocamos cartinhas
eletrônicas e informações de ambas as partes por mais ou menos 10 anos, e estas
informações nos permitiram escrever nossa história em um livro bilíngüe UMA
FAMÍLIA, UMA HISTÓRIA/ UNA FAMIGLIA UNA STORIA, onde registramos os fatos desde
a saída da Itália até a chegada ao Brasil do sul onde se estabeleceram,
buscando informações nos portos de chegada, nos cartórios de registros
Brasil/Itália, nos livros dos padres scalabrinianos visto que dentre os 3
irmãos e uma irmã que migraram um era missionário scalabriniano. Incluímos
partes de história oral, documentos Brasil/Italia e também o que aconteceu com
nossa família depois de 50 anos da chegada ao Brasil, que foram as migrações e a formação das
cidades.
Durante o período da
pesquisa, á medida que iam surgindo os fatos, as vicissitudes dos imigrantes aqui,
das humilhações que foram submetidos
sofri um pouco, até me surpreendi
chorando como se estivesse na pele dos meus antepassados partindo da
Itália , despedindo-se do irmão para nunca mais se verem, como aconteceu de
fato.
Concluo aqui minha dissertação afirmando que
me sinto brasileira me interesso agora pela lingua Talian, reconhecida como
patrimônio imaterial do Brasil e a um passo de tornar-se legalmente uma lingua
latina. É mais um assunto de estudo, sem sentimentalismos. O Brasil é o Brasil e
a Itália é a Itália, me interesso por
ela como um país europeu no qual posso fazer uma ótima viagem turística e onde
tenho parentes habitando, aos quais prezo muito.. Nós, brasileiros descendentes
de imigrantes italianos somos completamente diferentes nos hábitos e no aspecto
cultural dos italianos do tempo presente. Meus sobrinhos.as e sobrinhos
netos.as já não sabem falar talian, cada
um está inserido em seu ESTADO NATAL , cultivando algum costume local no
calendário de festas folclóricas. Incorporamos ao nosso cotidiano hábitos dos
primeiros povoadores deste Estado do Rio Grande do Sul , como tomar mate ou
chimarrão, uma bebida servida quente em um porongo ao qual chamamos cuia , na
qual já está uma porção da erva mate, planta nativa que os indígenas bebiam e
também o churrasco gaúcho, carne assada no fogo, temperada apenas com sal
grosso, habito dos primeiros gaúchos pampeanos. Aqui estamos para viver e construir o nosso
Brasil.
E a Italia? No fundo da
minha memória genética um fato que não posso negar: emociono-me ao ver os
lugares onde moraram meus antepassados, imagino a vida que viveram ali, em
Vicenza, andando pelas planícies e escalando as montanhas. São os ecos do
passado que ainda perduram.
Vocabulário:
- corridas de cancha reta= corrida de cavalos, prática
cultural esportiva sulriograndense
-tropeiros=Tropeiro, condutor de tropa,
arrieiro ou bruaqueiro é a designação dada aos condutores de tropas ou
comitivas de muares e cavalos entre as regiões de produção e os centros
consumidores no Brasil a partir do século XVII.
-Luso
brasileiros=Que ou quem tem origem ou nacionalidade portuguesa e brasileira.
Plural: luso-brasileiros.
-pampeanos=habitantes do pampa gaúcho
-gaúchos= brasileiro nascido no Rio Grande do Sul
-churrasco=carne assada na brasa, fincada em estacas
ou grelhas
-erva mate=A erva-mate (nome científico: Ilex paraguariensis), também
chamada mate ou congonha,[1] é
uma árvore da família das aquifoliáceas, originária
da região subtropical da América do Sul.
- chimarrão, ou mate,
é uma bebida característica da cultura do sul da América do Sul legada pelas
culturas indígenas caingangue, guarani, aimará e quíchua
-Cuia, cabaça, cabaço, coité, cuieté, cuietê, cuité e cuitê são
os nomes dados ao fruto da cuieira (Crescentia cujete e Lagenaria siceraria),[1]bem como ao vaso
feito desse fruto maduro depois de esvaziado do miolo
pode me informar que idioma é esse????
ResponderExcluirNão entendo seu idiona
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